segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Ecce Homo
Chegam quase juntos ao tribunal. Sentam-se quase frente a frente. Os olhos quase se encaram, só assim não fazem por que não suportam a realidade que o olhar lhes exibe, um por causa das rugas, da pele desgastada e das várias mechas de cabelos brancos do outro; este outro, por causa da aparência jovem que há muito havia perdido e ali está estampada a acusar-lhe a estética do pensamento.
O Juiz abre a sessão de acordo com as ordens que lhe são incumbidas, escuta a um, escuta a outro, recebe os protestos de um e reclamações de outro.
Ninguém ali na sala entende direito por que cargas d'água réu e acusador se enfrentam perante ao júri. Afinal Aquele e Este são a mesma pessoa, diferindo apenas que Este é Aquele aos quinze anos de idade e Aquele é Este aos quarenta.
Alega Aquele que já perdeu a vontade de viver porque Este esgotou todas as suas expectativas de lutar por um futuro promissor e de sucesso. Os planos e sonhos da sua vida nada têm a ver com aquela pessoa que esta a sua frente e que diz ser Ele, vinte e cinco anos mais velho. Sendo assim, Aquele esta ali, em frente ao juiz, pedindo que faça justiça e condene Este à destruição, para que assim, possa fazer o seu próprio futuro(...)
(...)Frente a frente, o ontem e o hoje se enfrentam durante dias, tentam de todas as formas convencer a todos que seus argumentos são mais relevantes do que os do outro. Pela primeira vez na história da justiça uma mesma pessoa é ré e acusadora ao mesmo tempo. O mais jovem não aceita aquele futuro, diz que se assim for, prefere acabar com a própria vida. O mais velho, mais maduro e dono da experiência(...)
(...) Quem haverá de julgar com precisão a um ou a outro, ou melhor a Este ou a Aquele? Já é difícil decidir a quem se nomeia de Este ou de Aquele. Justo seria chamar de Este o mais velho, pois está aqui, agora, no momento presente. Já o mais novo, que já se foi e é passado, de Aquele. Porém, isso depende de quem está lendo este conto. Se acaso o leitor encontra-se na idade de quinze anos, denominará de Este o mais novo e de Aquele o mais velho, porque assim melhor lhe parecerá. Por outro lado se já conta com quatro décadas ou mais, chamará de Aquele o mais novo e de Este o mais velho, pois assim lhe parecerá mais lógico. Como quem escreve este texto sou Eu que estou com quatro dezenas de anos, decido por livre e espontânea imposição que de Aquele se chamará o mais novo e que Este será para o mais velho.
[Quer ler o conto na íntegra? Mande um email para: ricardogouvea1@hotmail.com e receba no seu email.]
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Criado-mudo, porém, não surdo.
Lembro-me do último que tive, era do tipo cerejeira, coberto por uma lâmina e por dentro caco de madeira.
Triste o dia em que resolvi confiar àquele crápula a foto de minha namorada.
Sobre ele coloquei seu retrato, ao lado de um pequeno abajur de tecido vermelho e franjas amareladas.
Todas as noites, antes de dormir, olhando para aquele rostinho, desejava boa noite e declarava todo o meu amor, finalizando com um beijinho.
Após, devolvia-lhe aos cuidados do criado mudo, porém não surdo.
Nunca que eu desconfiaria que aquele velhaco guardava para si todas as palavras de amor que eu proferia à minha amada, sobre ele depositada.
Até o dia que tomei um “pé na bunda” e o retrato da vagabunda foi parar na gaveta do maldito criado mudo.
Este, por sua vez, todas as noites antes de eu dormir, repetia com ironia, palavra por palavra, as juras que eu ditava, no tempo em que amava.
Daí você vai me perguntar: Mas como. Acaso o criado não é mudo? E eu responderei meu amigo: mudo, porém não surdo.
As palavras que o maldito ditava, não eram das que se fala e sim das que cala.
Com jeito de quem não sabe nada, cada vez que a luz se apagava, no silêncio que ali reinava, só de olhar para aquele criado com a imagem da dita cuja na segunda gaveta trancafiada, as palavras ecoavam e nada me diz ao contrário que era coisa daquele salafrário as tais palavras que eu ouvia. Boa noite querida, durma com os anjos, porque eu hei de te amar por toda a minha vida.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
bastardos Inglórios - Roteiro Original
Eis aí o que todo mundo gostaria de fazer com os nazistas. Se a vingança é um prato que se come frio, o filme Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino é um frozen servido com pitadas sarcásticas de muito ódio ao ódio nazista. Mesmo depois de quase 60 anos de Hittler terminar sua brincadeira de limpeza étnica mundial, o mundo ainda não esqueceu e não perdoou. E quer arma melhor que o cinema para saciar o nosso desejo de vingança?
TOMA SEU FÜHRER FDP...
Foi o que Tarantino realizou com seu filme. Nele, quem dita o destino dos nazistas são as mãos e a imaginação do autor. Até a fala do Führer obedece às ordens do roteirista, que sem saber é levado estrategicamente a cair como um ratinho na sua armadilha. Quem gosta do cinema reinventivo de Tarantino, tem aí um belo exemplar para apreciar. Mas se você também gosta de uma boa leitura, tem a oportunidade de ler o roteiro original do filme. Nele podemos ter uma prova mais imersiva do poder da criação e articulação do autor. E não pense que só porque é cheio de pausas técnicas que a leitura é tecnicista. Ao contrário, as interrupções para descrever as direções de câmera, as reações faciais dos personagens ou até mesmo a pormenorização do cenário não criam lacunas na sequência da leitura, são intersecções que mantêm a continuidade da leitura, feitas com muita maestria. Além disso, os diálogos são envolventes e fazem com que o leitor interaja de forma única no universo e sentimento dos personagens. Ler o roteiro do filme é dar um presente à nossa capacidade de criar em cima da criação de Quentin Tarantino. Leia o trecho abaixo:
“TEN. ALDO
... e os alemães ficarão enjoados por nós.
E os alemães falarão de nós.
E os alemães nos temerão.
E quando os alemães fecharem os olhos à noite e seus subconscientes os torturarem pelo mal que fizeram, vão torturá-los com pensamentos sobre nós.
Ele para de andar de um lado para o outro e olha para todos.
TEN. ALDO
Parece bom?
Todos Dizem:
TODOS
Sim, senhor!
TEN. ALDO
Isso é o que eu gosto de ouvir. Mas tenho um aviso para todos os futuros guerreiros. Quando vocês se apresentam ao meu comando, vocês assumem uma dívida. Uma dívida pessoal comigo. Cada homem sob meu comando me deve cem escalpos nazistas. E eu quero meus escalpos. E todos vocês vão me dar cem escalpos nazistas, tirados das cabeças de cem nazistas mortos...ou vão morrer tentando."
Permita-se incorporar um personagem do filme e, numa pequena pausa na leitura, dar a sua deixa com: "Até o fim, baby, até a porra do fim" .
Leia, viaje e crie as suas próprias figuras de personagens, seus próprios sets de filmagens e sua própria forma de imaginar as falas interpretativas.
Bastardos Inglórios não é o livro que virou filme, muito menos o contrário. É apenas o filme, que pode ser visto sob dois tipos de olhar: o das letras e das imagens, e você pode ter os dois, "até a porra do fim, baby".
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Se as agências de publicidade fossem mulheres...
AFRICA →é aquela mulher mística, brasileira com origens afros, na flor da idade, corpo de modelo de passarela. Só que tem um namorado que pensa que é dono da vida dela e de todos os familiares, faz ela ficar acordada 24 horas por dia e mesmo assim ele não dá conta do recado.
AG407 →é aquela amiga porra loca que dá pra você, pra sua galera e não tá nem ai. Freqüenta lugares como o Vegas e CB. Tem tatuagem em todo o corpo mas não sabe explicar nenhuma.
Agnelo Pacheco →é aquela menina que você já ouviu falar na época que estudava publicidade na faculdade e depois nunca mais viu ou ouviu nenhum comentário sobre.
AlmapBBDO →Gatinha, você quer conhecer de qualquer maneira, mas seu amigo não passa o contato. Você descobre o e-mail e fica flertando até que um dia rola o rala-rola.
DCS →gauchinha loirinha gostosa que toma mate e fala: ba tche. É difícil pra caramba de conseguir o telefone, e saber mais infos dela. Mas na hora que ela fica intima, se abre inteira.
Dentsu →Japinha nova no pedaço. Pegou uma carona com o sucesso da Sabrina Sato e com o centenário do Japão em São Paulo. Procura um brasileiro para aprender Samba, mas se misturou com um catalão. Tá esperando a vez no Big Brother para ver se vira sucesso ou fracassa de vez.
DM9DDB →é aquela mulher grande, gostosa, que todo mundo quer comer e muitos já comeram. E os que comeram saíram fora rapidinho de tanto “piti” que ela dá, é meio peruona, uma mulher com uma certa idade, que faz de tudo para aparecer. Pensa que tem conteúdo por ler a revista CARAS.
DPZ →é aquela pati de 35 anos modernosa, artista plástica, que morou fora do Brasil boa parte da vida, já teve seu tempo de glória. Continua gostosa e tem algumas tattos espalhadas no corpo. Finge que gosta de todo tipo de homem, mas na verdade só dá pra quem tem dinheiro.
Eugênio →Com esse nome, se fosse mulher seria um traveco. Eugenia, venha já pra cá! Travesti na certa… Mas sempre tem uns que curtem, pergunte ao fenômeno.
Euro RSCG →Só pelo nome você pensa em casar para morar na Europa, mas engana-se porque ao chegar lá vê que será forçado a trabalhos braçais. De uns peguinhas e conte para todos os amigos da Sueca gatinha que conheceu num albergue em Amsterdan.
F/Nazca →Criativa, ama cores, e curte correr no ibira. Tem vários sobrenomes confusos para confundir os pretendentes. Gosta muito de usar lápis nos olhos, mas nega em público que usa maquiagem.
Full Jazz →é aquela mulher socióloga, rica e com consciência social, mas que no fundo é uma super pati. Ou seja, você só vai pegar se tiver muito dinheiro e ter visto o documentário Uma Verdade Incoveniente do Al Gore e souber discuti-lo com a última campanha de WWF.
J.W. Thompson →Todo mundo já comeu menos você. É velha enxuta. Tome cuidado porque ela só gosta de gringos, vive só de alinhamentos internacionais, você vai gastar muito com DDI.
Loducca →é aquela mulher que a vida inteira foi bixo-grilo, estudou filosofia na USP e de bate-pronto quer virar patricinha. Foi morar na Cidade Jardim, ficou amigo dos novos ricos do IPO e tirou uma graninha deles.
McCann Erickson →Loira, peituda, do Baywatch. Sim, usa os biquínis vermelhos e leva a bóia pendurada. É meia distante da realidade brasileira, mas só pelo nome você acha um tesão. Com certeza você já socou uma para ela ou no seriado da TV ou em algum filme caseiro que seus amigos te enviaram por e-mail.
MPM →é aquela mulher que já foi gostosa quando jovem, ficou longe das baladas por um tempo, aplicou botox, botou silicone, deu uma turbinada. É uma véia enxuta. Quem comeu na sua época áurea mandou bem. Hoje só vale se você curtir uma tiazinha.
Neogama →É o que o pessoal chama de mulher salada. é bonitinha, cheira bem, mas quando você come, descobre que não é tão gostosa assim. Ai vai procurar outra.
Ogilvy →Alguma época da vida foi gostosa mas você nunca viu. É uma gringa que veio pra cá a um tempo atrás sem documento conheceu um brasileiro, casou pelo visto e ficou.
PeraltaStrawberryFrog →meninha sapeca que paga pau pra gringo. Se você não souber falar inglês direito, sai fora. Para pegar ela tem que usar um tenis Nike Vintage, uma camiseta da UCLA, boné NYC, bermuda da GAP e gostar do Starbucks, se não, abraço.
Publicis →mulher francesa, de meia idade, conservada, bem perfumada. Mas que você prefere olhar do que comer. O telefone dela está sempre na agenda. As vezes ela aparece nas festas para mostrar que continua por ai.
Rino Publicidade →uma mulher que você sempre passa na frente da casa dela mas não faz idéia de quem ela seja ou o que ela faz. Nunca tem um carro ou movimentação em frente a casa dela, ou seja, está desesperada atrás de novos namorados. Se você está afim de tirar uma teias, bola pra frente.
SANTACLARA NITRO →é aquela adolescente que escuta músicas indie, se veste diferente e é um tesãozinho. Freqüenta baladas como o Milo Garage. Para chegar nela só cantando o último sucesso de Belle and Sebastian.
Talent →é aquela mulher que você marca uma viagem ela tem tudo planejado. Sabe o hotel, o melhor restaurante, as livrarias, e pra fazer sexo com ela só no dia e horário marcado.
Taterka →é aquela mestiça, que precisa de um regiminho de tanto só comer McDonald’s. Foi convidada para participar do filme: Super Size Me. Cuidado ao namorar que pode vir com um presentinho surpresa igual ao McLanche Feliz.
Y&R →Essa é uma que sempre chama a amiga (loira gostosinha) e você pode se dar bem com um belo ménage. E ainda sair cantando com o Bob: Singing in the rain! Ou melhor entre quatro parades você vai cantar: Manequim, teu sorriso é um colar de marfim…
W/Brasil →Para os mais íntimos W, é a nossa Carmem Miranda. Já fez muito sucesso fora, momentos de glória, muitos em cima dela e hoje vive do passado. Inspirou muitos garotos de todas as idades. Um clássico nacional pra gringo ver.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
DEIXE SUA MARCA FALAR

TODO PRODUTO TRAZ NO PEITO a estampa da marca cheia de traços, símbolos, cores e formas.
TODA MARCA TEM A LINGUAGEM do texto, da curva, da reta, do conteúdo, do cheiro, do gosto que penetra na mente.
E faz comprar, usar, ver, beber, passar, andar, deitar e rolar, girando a máquina do consumo.
TODO CONSUMO É FRUTO DA RELAÇÃO entre produto, homem e máquina, fechando o triângulo amoroso embalado por todas as formas de comunicar.
TODA COMUNICAÇÃO É FEITA pelo falar, sorrir, gritar, chorar, desejar, cantar, iludir, tentar, seduzir e emocionar.
PRODUTOS, MARCAS E CONSUMIDORES. Todos querendo soltar a língua, soltar o verbo, falar.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Nevou em São Paulo

A BRISA DO VENTILADOR JÁ NÃO ESTÁ MAIS TÃO AGRADÁVEL. Acordo às quatro da matina com o corpo gelado. Ainda em transe pelo sono, dou dois passos e desligo o ventilador. Volto para cama como um sonâmbulo, escorrego pelos lençóis, buscando o travesseiro e sinto meus pés gelados por causa do piso. Estranho a temperatura, mas o sono não me deixa raciocinar direito. Puxo o edredom sobre mim e volto para o tão delicioso descanso.
Sinto a perna da minha esposa acomodar-se sobre minha cintura e aprecio o calor do seu corpo sobre o meu. - Que frio. Diz ela num sussurro. Concordo e me aninho mais a ela. A janela estremece com uma rajada de ar e o quarto se torna mais gélido ainda. Minha esposa num movimento quase involuntário salta da cama, abre uma porta do guarda-roupa e retira lá do alto um cobertor. Sinto o peso de mais uma coberta cair agradavelmente sobre mim.
Apesar dos pés gelados consigo tirar um cochilo até as seis e meia da manhã. Ouço sirenes de bombeiros, ambulâncias e carros de polícia numa quantidade maior que o normal. Ameaço levantar da cama e volto para baixo das cobertas quase que instantaneamente, pois o frio é intenso e cortante. Conto mentalmente até dez para me lançar para fora das cobertas e dou um salto colocando os dois pés no chão. Sinto o piso entrar em contato com a sola de meus pés de uma forma estranha. É como se meu corpo começasse a petrificar a partir da base. Aos poucos o sangue dos dedos paralisa, causando uma reação em cadeia para o calcanhar, juntas dos tornozelos, canelas e antes que chegasse ao restante da minha perna retirei-a do chão e voltei novamente para baixo das cobertas. Bati forte o queixo, rangendo os dentes. Olhei para a fresta da janela que deixava um filete de luz entrar e notei que algo realmente não estava normal. Entre o espaço do alumínio brilhava uma camada fina de uma substância branca. Era uma espécie de cola transparente unindo as duas partes de metal. Brilhava muito e então tive a certeza de que, por mais difícil que fosse, teria que levantar, teria que superar todo o frio e saltar da cama, vestir uma roupa, meias e tudo o que fosse necessário para me abrigar e verificar o que estava ocorrendo de tão estranho naquela manhã de janeiro, em pleno verão. E assim fiz. Envolvido por dois blusões de lã, cheirando a naftalina, fui até a janela da sala e abri a cortina. Pasmem, dei um salto atrás.
A cidade antes monocromática pela cor cinza agora se cobria de branco e estava gélida a minha frente. Pálida como uma geleira, grossa como um congelador precisando de descongelamento. As ruas brilhantes espelhavam o céu e havia pessoas brincando de escorregar na neve e outras correndo desesperadas, tentando entender a loucura toda. Uma coisa tinha-se certeza. Havia nevado em São Paulo, em pleno verão. Aquilo, sem a menor dúvida era neve. De onde havia saído? Como acontecera? Era o que todos se perguntavam.
Fiquei ali a contemplar aquela paisagem encantadora e assustadora. Liguei a TV e todos os canais interromperam suas programações normais para mostrar a São Paulo coberta por neve. De acordo com as notícias todas as regiões da grande São Paulo estavam embranquecidas pelo gelo. Os aeroportos de Congonhas e Guarulhos cancelaram todos os pousos e decolagens. O metrô funcionava perfeitamente após retirarem o excesso de neve das escadarias de todas as estações. Porém, trens de superfície estavam completamente parados em decorrência da neve acumulada nos trilhos. Ônibus nenhum estava circulando pela cidade por causa do perigo de derrapagem. Os sistemas de comunicação entraram em colapso, não pelo frio ou pela neve, mas porque uma quantidade de vinte milhões de pessoas resolvera usar os celulares todos ao mesmo tempo. A câmara de vereadores anunciou uma sessão extraordinária para discutir a questão glacial. Notável foi o espetáculo de moda proporcionado pelos edis paulistanos. Ternos de lã, parcas, sobretudos e vestimentas que não perdiam nem um pouco para a moda do inverno europeu. Porém, apesar do glamour, nada ficou decidido, pois ninguém podia explicar de onde viera e quanto tempo duraria essa inusitada situação climática. Na televisão um taxista que estava de plantão no momento que começou a nevar relatava o que havia acontecido. Com os olhos muito arregalados ele narrava o momento que sentiu uma forte rajada de vento se aproximar, levantando muita poeira, quebrando galhos de árvores, isso por volta de três da manhã. Ele contava que sentiu pequenas gotas d’água caírem sobre o pára-brisa de seu automóvel. Aos poucos os pingos começaram a se transformar em pequenos flocos brancos que deslizavam sobre o vidro. A paisagem, segundo o taxista narrador, começou a se tingir de branco. Em menos de uma hora tudo a sua frente estava coberto de neve, inclusive sua parati. Neste momento o câmeraman mostrou o automóvel enterrado na neve. Sobre a imagem da parati entrou uma repórter vestindo um sobretudo preto com gola peluda, finalizando a matéria: - Estamos aqui nas ruas de São Paulo acompanhando esta manhã muito diferente na vida dos paulistanos. A qualquer momento voltamos com novas informações. A partir daí uma vinheta computadorizada mostrava a bandeira da cidade com flocos de neve à volta. Não se sabe como, mas as casas Bahia entraram com comercial anunciando aquecedores elétricos em até trinta vezes, sem entrada.

AS AUTORIDADES NÃO HAVIAM SE PRONUNCIADO COM EXPLICAÇÕES DO FATO. O prefeito deu uma coletiva por volta das onze da manhã. Apareceu sentado em sua mesa, vestindo um terno de lã marrom e gravata preta. Perguntado por um dos repórteres presentes sobre o que teria causado o acontecido, ele foi categórico: - Eu sou prefeito, análises climáticas estão sendo feitas pelos meteorologistas e cientistas. Assim que tivermos uma explicação informaremos a vocês. Assuntos climáticos cabiam aos cientistas, assim conclui a sua coletiva. Mas, pelo jeito, os cientistas também não tinham um parecer muito claro sobre o assunto.
Por volta das duas da tarde voltou a cair neve em toda grande São Paulo. A euforia inicial que tomou conta da população deu espaço à histeria. Um vento de sessenta quilômetros por hora começou a assobiar nas colunas dos edifícios, causando a impressão que a construção não agüentaria, pois grossas camadas de neve acumulavam-se nos beirais. Ouviam-se gritos de desespero pelas ruas e a temperatura começava a cair muito mais. Durante três dias consecutivos a nevasca não deu trégua. Ninguém saia de casa, muitas residências ficaram sem energia elétrica, pois as estruturas de fiação começaram a desabar com o acumulo de neve. O caos estava formado na maior cidade do país. Não havia equipamentos nem pessoas treinadas a enfrentar este tipo de emergência. O que cada indivíduo percebia era uma aura cálida e gélida a pairar sobre a cidade que entrava em suas almas talvez mais gélidas ainda. Debruçados sobre suas janelas, com a cara colada no vidro embaçado, milhões de pessoas meditavam sobre suas vidas e contemplavam as suas ruas, seus bairros e calçadas forradas de neve. Sim, aquela substância branca que não devia estar ali, mas sim em algum lugar muito distante onde eles comprariam pacotes turísticos e se divertiriam por dias a fazer bonecos com gravetos e depois voltariam para o prazer da temperatura semitropical, para a poluição, para o engarrafamento, para a correria. Mas agora tudo havia mudado. Mais trágico ainda é que, em breve, descobririam que isso não era apenas uma mudança climática, tudo seria muito diferente dali em diante. A Saudade começava a tocar a lembrança de quando São Paulo tinha um clima muito maluco, mas sem neve.
(continua com a versão do autor. Ou sugira a sua versão dos acontecimentos no e.mail do blog: odiadacriacao@gmail.com)
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
O universo de Saramago e o mundinho da publicidade.

José Saramago, o atualíssimo escritor português que ilumina a literatura mundial, além de exímio literato é também um matemático por excelência. Qualquer leitor que passe por Saramago percebe a sua infinita capacidade de criar complicados sistemas lógicos e organizacionais como fórmula para as suas epopéias criativas, explorando ao máximo argumentos antropológicos e filosóficos. Foi assim em “A jangada de pedra”, onde Ele formula uma equação de fatos catastróficos baseado na ruptura geológica de Portugal e Espanha do resto do continente europeu, e assim, com um ambiente de caos, mergulha seus personagens numa aritmética romancista. Não diferente fez em “O cerco a Lisboa”, onde ele brilhantemente deslocou um fato histórico, simplesmente invertendo a resposta dos mouros ao Rei de Portugal: Um não, ao invés de um sim. Pronto, a partir dali tudo mudaria, pois, assim como se um matemático trocar um expoente numa fórmula mudará completamente o resultado, Saramago na figura do revisor Raimundo Silva também distorceu completamente o rumo da história de Portugal, resultando num romance de teor fascinante e genial.
Mas afinal, o que tem a ver a genialidade matemática da literatura de Saramago com o mundo da publicidade?
Tudo. Nada.
Tudo, porque o teor da criação publicitária possui o mesmo DNA da criação do escritor português, ambos recorrem à construção de uma base imaginária para alicerçarem seus argumentos. O publicitário tem um produto na mão, plástico, rígido, sem alma, sem significado emocional, oco de subjetividade. Portanto, necessita dotá-lo de espírito, de coração para poder convencer o público que esta coisa é mais que uma coisa, é um estado de viver, um objeto de consumo. Por outro lado, Saramago tem uma história a contar, personagens precisam ser criados, o amor entre um homem e uma mulher deve existir, bem como os seus abalos e complicações emocionais que fazem da história um romance. Por isso, ele recorre ao campo do pano de fundo, dali cria a rotina que enreda os personagens e convence o leitor a seguir palavra por palavra, linha a linha, página a página e a cada capítulo uma avalanche de leitura até o final.
Ao mesmo tempo, estes dois mundos criadores, publicitários e Saramago, nada têm a ver um com outro. Pois, o escritor tem como briefing a pura necessidade de criar, deve contar em texto um enredo ficcional que ao mesmo tempo em que entretêm, desenvolve o raciocínio e fomenta a intelectualidade do alvo. Ironicamente o publicitário tem uma missão inversamente proporcional ao literato. Seu briefing é pautado na razão, é tão concreto quanto o mármore da mesa de reunião na qual os executivos se reúnem para formulá-lo. Nele, a criação é tão livre quanto o espaço que lhe é destinado pelo formato do anúncio ou a duração do filme.
Portanto, caros leitores, sejam escritores ou publicitários, enquanto qualificamos as obras de Saramago como um universo literário; nomeamos as obras publicitárias como um mundinho, pois o universo é criativo e um mundo apenas obedece a uma órbita de rotação e translação infinita ao redor do sol das marcas.