[uma curta história sobre o dia em que o Eu de 15 anos resolveu processar o Eu de 40]
Chegam quase juntos ao tribunal. Sentam-se quase frente a frente. Os olhos quase se encaram, só assim não fazem por que não suportam a realidade que o olhar lhes exibe, um por causa das rugas, da pele desgastada e das várias mechas de cabelos brancos do outro; este outro, por causa da aparência jovem que há muito havia perdido e ali está estampada a acusar-lhe a estética do pensamento.
O Juiz abre a sessão de acordo com as ordens que lhe são incumbidas, escuta a um, escuta a outro, recebe os protestos de um e reclamações de outro.
Ninguém ali na sala entende direito por que cargas d'água réu e acusador se enfrentam perante ao júri. Afinal Aquele e Este são a mesma pessoa, diferindo apenas que Este é Aquele aos quinze anos de idade e Aquele é Este aos quarenta.
Alega Aquele que já perdeu a vontade de viver porque Este esgotou todas as suas expectativas de lutar por um futuro promissor e de sucesso. Os planos e sonhos da sua vida nada têm a ver com aquela pessoa que esta a sua frente e que diz ser Ele, vinte e cinco anos mais velho. Sendo assim, Aquele esta ali, em frente ao juiz, pedindo que faça justiça e condene Este à destruição, para que assim, possa fazer o seu próprio futuro(...)
(...)Frente a frente, o ontem e o hoje se enfrentam durante dias, tentam de todas as formas convencer a todos que seus argumentos são mais relevantes do que os do outro. Pela primeira vez na história da justiça uma mesma pessoa é ré e acusadora ao mesmo tempo. O mais jovem não aceita aquele futuro, diz que se assim for, prefere acabar com a própria vida. O mais velho, mais maduro e dono da experiência(...)
(...) Quem haverá de julgar com precisão a um ou a outro, ou melhor a Este ou a Aquele? Já é difícil decidir a quem se nomeia de Este ou de Aquele. Justo seria chamar de Este o mais velho, pois está aqui, agora, no momento presente. Já o mais novo, que já se foi e é passado, de Aquele. Porém, isso depende de quem está lendo este conto. Se acaso o leitor encontra-se na idade de quinze anos, denominará de Este o mais novo e de Aquele o mais velho, porque assim melhor lhe parecerá. Por outro lado se já conta com quatro décadas ou mais, chamará de Aquele o mais novo e de Este o mais velho, pois assim lhe parecerá mais lógico. Como quem escreve este texto sou Eu que estou com quatro dezenas de anos, decido por livre e espontânea imposição que de Aquele se chamará o mais novo e que Este será para o mais velho.
[Quer ler o conto na íntegra? Mande um email para: ricardogouvea1@hotmail.com e receba no seu email.]
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Criado-mudo, porém, não surdo.
Faz muito tempo que me livrei dessa raça que só desmoraliza a imagem dos mobiliários.
Lembro-me do último que tive, era do tipo cerejeira, coberto por uma lâmina e por dentro caco de madeira.
Triste o dia em que resolvi confiar àquele crápula a foto de minha namorada.
Sobre ele coloquei seu retrato, ao lado de um pequeno abajur de tecido vermelho e franjas amareladas.
Todas as noites, antes de dormir, olhando para aquele rostinho, desejava boa noite e declarava todo o meu amor, finalizando com um beijinho.
Após, devolvia-lhe aos cuidados do criado mudo, porém não surdo.
Nunca que eu desconfiaria que aquele velhaco guardava para si todas as palavras de amor que eu proferia à minha amada, sobre ele depositada.
Até o dia que tomei um “pé na bunda” e o retrato da vagabunda foi parar na gaveta do maldito criado mudo.
Este, por sua vez, todas as noites antes de eu dormir, repetia com ironia, palavra por palavra, as juras que eu ditava, no tempo em que amava.
Daí você vai me perguntar: Mas como. Acaso o criado não é mudo? E eu responderei meu amigo: mudo, porém não surdo.
As palavras que o maldito ditava, não eram das que se fala e sim das que cala.
Com jeito de quem não sabe nada, cada vez que a luz se apagava, no silêncio que ali reinava, só de olhar para aquele criado com a imagem da dita cuja na segunda gaveta trancafiada, as palavras ecoavam e nada me diz ao contrário que era coisa daquele salafrário as tais palavras que eu ouvia. Boa noite querida, durma com os anjos, porque eu hei de te amar por toda a minha vida.
Lembro-me do último que tive, era do tipo cerejeira, coberto por uma lâmina e por dentro caco de madeira.
Triste o dia em que resolvi confiar àquele crápula a foto de minha namorada.
Sobre ele coloquei seu retrato, ao lado de um pequeno abajur de tecido vermelho e franjas amareladas.
Todas as noites, antes de dormir, olhando para aquele rostinho, desejava boa noite e declarava todo o meu amor, finalizando com um beijinho.
Após, devolvia-lhe aos cuidados do criado mudo, porém não surdo.
Nunca que eu desconfiaria que aquele velhaco guardava para si todas as palavras de amor que eu proferia à minha amada, sobre ele depositada.
Até o dia que tomei um “pé na bunda” e o retrato da vagabunda foi parar na gaveta do maldito criado mudo.
Este, por sua vez, todas as noites antes de eu dormir, repetia com ironia, palavra por palavra, as juras que eu ditava, no tempo em que amava.
Daí você vai me perguntar: Mas como. Acaso o criado não é mudo? E eu responderei meu amigo: mudo, porém não surdo.
As palavras que o maldito ditava, não eram das que se fala e sim das que cala.
Com jeito de quem não sabe nada, cada vez que a luz se apagava, no silêncio que ali reinava, só de olhar para aquele criado com a imagem da dita cuja na segunda gaveta trancafiada, as palavras ecoavam e nada me diz ao contrário que era coisa daquele salafrário as tais palavras que eu ouvia. Boa noite querida, durma com os anjos, porque eu hei de te amar por toda a minha vida.
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