segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Ecce Homo

[uma curta história sobre o dia em que o Eu de 15 anos resolveu processar o Eu de 40]

Chegam quase juntos ao tribunal. Sentam-se quase frente a frente. Os olhos quase se encaram, só assim não fazem por que não suportam a realidade que o olhar lhes exibe, um por causa das rugas, da pele desgastada e das várias mechas de cabelos brancos do outro; este outro, por causa da aparência jovem que há muito havia perdido e ali está estampada a acusar-lhe a estética do pensamento.
O Juiz abre a sessão de acordo com as ordens que lhe são incumbidas, escuta a um, escuta a outro, recebe os protestos de um e reclamações de outro.
Ninguém ali na sala entende direito por que cargas d'água réu e acusador se enfrentam perante ao júri. Afinal Aquele e Este são a mesma pessoa, diferindo apenas que Este é Aquele aos quinze anos de idade e Aquele é Este aos quarenta.
Alega Aquele que já perdeu a vontade de viver porque Este esgotou todas as suas expectativas de lutar por um futuro promissor e de sucesso. Os planos e sonhos da sua vida nada têm a ver com aquela pessoa que esta a sua frente e que diz ser Ele, vinte e cinco anos mais velho. Sendo assim, Aquele esta ali, em frente ao juiz, pedindo que faça justiça e condene Este à destruição, para que assim, possa fazer o seu próprio futuro(...)

(...)Frente a frente, o ontem e o hoje se enfrentam durante dias, tentam de todas as formas convencer a todos que seus argumentos são mais relevantes do que os do outro. Pela primeira vez na história da justiça uma mesma pessoa é ré e acusadora ao mesmo tempo. O mais jovem não aceita aquele futuro, diz que se assim for, prefere acabar com a própria vida. O mais velho, mais maduro e dono da experiência(...)

(...) Quem haverá de julgar com precisão a um ou a outro, ou melhor a Este ou a Aquele? Já é difícil decidir a quem se nomeia de Este ou de Aquele. Justo seria chamar de Este o mais velho, pois está aqui, agora, no momento presente. Já o mais novo, que já se foi e é passado, de Aquele. Porém, isso depende de quem está lendo este conto. Se acaso o leitor encontra-se na idade de quinze anos, denominará de Este o mais novo e de Aquele o mais velho, porque assim melhor lhe parecerá. Por outro lado se já conta com quatro décadas ou mais, chamará de Aquele o mais novo e de Este o mais velho, pois assim lhe parecerá mais lógico. Como quem escreve este texto sou Eu que estou com quatro dezenas de anos, decido por livre e espontânea imposição que de Aquele se chamará o mais novo e que Este será para o mais velho.

[Quer ler o conto na íntegra? Mande um email para: ricardogouvea1@hotmail.com e receba no seu email.]