quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O universo de Saramago e o mundinho da publicidade.



José Saramago, o atualíssimo escritor português que ilumina a literatura mundial, além de exímio literato é também um matemático por excelência. Qualquer leitor que passe por Saramago percebe a sua infinita capacidade de criar complicados sistemas lógicos e organizacionais como fórmula para as suas epopéias criativas, explorando ao máximo argumentos antropológicos e filosóficos. Foi assim em “A jangada de pedra”, onde Ele formula uma equação de fatos catastróficos baseado na ruptura geológica de Portugal e Espanha do resto do continente europeu, e assim, com um ambiente de caos, mergulha seus personagens numa aritmética romancista. Não diferente fez em “O cerco a Lisboa”, onde ele brilhantemente deslocou um fato histórico, simplesmente invertendo a resposta dos mouros ao Rei de Portugal: Um não, ao invés de um sim. Pronto, a partir dali tudo mudaria, pois, assim como se um matemático trocar um expoente numa fórmula mudará completamente o resultado, Saramago na figura do revisor Raimundo Silva também distorceu completamente o rumo da história de Portugal, resultando num romance de teor fascinante e genial.
Mas afinal, o que tem a ver a genialidade matemática da literatura de Saramago com o mundo da publicidade?
Tudo. Nada.
Tudo, porque o teor da criação publicitária possui o mesmo DNA da criação do escritor português, ambos recorrem à construção de uma base imaginária para alicerçarem seus argumentos. O publicitário tem um produto na mão, plástico, rígido, sem alma, sem significado emocional, oco de subjetividade. Portanto, necessita dotá-lo de espírito, de coração para poder convencer o público que esta coisa é mais que uma coisa, é um estado de viver, um objeto de consumo. Por outro lado, Saramago tem uma história a contar, personagens precisam ser criados, o amor entre um homem e uma mulher deve existir, bem como os seus abalos e complicações emocionais que fazem da história um romance. Por isso, ele recorre ao campo do pano de fundo, dali cria a rotina que enreda os personagens e convence o leitor a seguir palavra por palavra, linha a linha, página a página e a cada capítulo uma avalanche de leitura até o final.

Ao mesmo tempo, estes dois mundos criadores, publicitários e Saramago, nada têm a ver um com outro. Pois, o escritor tem como briefing a pura necessidade de criar, deve contar em texto um enredo ficcional que ao mesmo tempo em que entretêm, desenvolve o raciocínio e fomenta a intelectualidade do alvo. Ironicamente o publicitário tem uma missão inversamente proporcional ao literato. Seu briefing é pautado na razão, é tão concreto quanto o mármore da mesa de reunião na qual os executivos se reúnem para formulá-lo. Nele, a criação é tão livre quanto o espaço que lhe é destinado pelo formato do anúncio ou a duração do filme.
Portanto, caros leitores, sejam escritores ou publicitários, enquanto qualificamos as obras de Saramago como um universo literário; nomeamos as obras publicitárias como um mundinho, pois o universo é criativo e um mundo apenas obedece a uma órbita de rotação e translação infinita ao redor do sol das marcas.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O diretor de arte X O diretor de marketing








Cliente: será que não dá para aumentar mais a logomarca? Tá muito pequena.

DA: talvez um pouco mais.

DM: a logomarca ainda está muito pequena.

DA: é que tem muita informação.

DM: então tira aquele texto ali no canto.

DA: mas aquele é o texto que explica a idéia do título e vende o produto.

DM: então deleta o título. Pronto. Agora pode deletar também esse texto ai no canto. Perfeito. Agora aumenta mais “a” logo.

DA: assim tá bom?

DM: pois é...aumenta um pouco mais “a” logo.

DA: mas... ela já está quase do tamanho da foto.

DM: diminui então um pouco essa foto.

DA: mas esse é o Reinaldo Gianecchini, nosso garoto propaganda!

DM: eu sei. Fui eu quem pagou ele. Mas pode ficar menor. Todo mundo vai notar que é ele.

DA: assim tá bom?

DM: tá. Agora aumenta a logomarca.

DA: desse jeito esse anúncio vai virar só logomarca.

DM: puxa. Você é um gênio! Deleta essa foto daí e deixa só a logomarca, bem grande no meio do anúncio.

DA: assim?

DM: estranho. E aqueles espaços em branco em cima e embaixo?

DA: é que a sua marca é horizontal e o anúncio é vertical.

DM: humm... Então estica ela para cima e para baixo e, por favor, aumenta essa logomarca porra do caralho!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

APENAS UMA INDICAÇÃO

Fleet Foxes – www.myspace.com/fleetfoxes

Um amigo meu classificou como velho, muito anos 70. Talvez, até mesmo pelo look da galera. Porém, seu som tem um toque floral, emociona e ao mesmo tempo soa pop. Experimente com os ouvidos. Dica da folha de São Paulo – Ilustrada - 09/10/2008.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O dia da criação

No começo era apenas o vazio. Um papel uniformemente vazio. Então ele , vendo que seu espírito boiava sobre esse vazio disse: faça-se a luz. E a luz se fez. Ele viu que a luz era boa e separou a luz do vazio. Deu à luz o nome de idéia e ao vazio o nome de branco. E, da idéia que preencheu o branco, se fez o primeiro dia.

Então ele ordenou: faça-se a forma, as cores, traços, palavras e sons, isso deverá vir da alma e sempre em pequenos lapsos, dosados um a um, a fim de valer muito, isso dará vida à idéia. E assim se fez. Ele viu que era bom. E a isso deu o nome de arte. E da idéia, decorada pela arte que preencheu o branco, se fez o segundo dia.

Ele ordenou: faça-se o firmamento donde há de se expandir a idéia que se iluminou. E o firmamento se fez. Ele viu que isso era bom e deu o nome de mídia. E da idéia, artística e luminosa, que preencheu o branco e se difundiu na mídia, se fez o terceiro dia.

Ele ordenou: faça-se um sinal para que cada idéia seja lembrada de acordo com esse sinal, e assim, quanto melhor a idéia mais valor será agregado ao sinal. Ele viu que esse sinal era bom e a ele deu o nome de marca. E da marca, movida pela idéia, colorida pela arte e difundida na mídia, se fez o quarto dia.

Então ele ordenou: façam-se coisas múltiplas, quadradas, redondas, macias, cheirosas, de comer, de beber, de vestir, de andar... a fim de que possam ser consumidas e dar utilidade à idéia, essência da minha criação. Ele viu que isso era bom e deu o nome de produto. E no momento em que a idéia podia ser usada e tocada, se fez o quinto dia.

Então, ele na sua empreitada criacionista, disse em seguida: Façamos alguém para comandar essa tarefa. Alguém a nossa imagem e semelhança e que ele mande sobre o produto, a marca, a arte, a mídia e seja o fiel detentor da minha idéia. E disse a eles: crescei e multiplicai, encheis a terra da sua prole. Então ele viu que havia feito bosta e deu o nome a isto de Diretor de Marketing. E no sétimo dia ele descansou, curtiu sua amarga ressaca e decidiu abandonar tudo, comprar um sebo na Pedroso de Morais e passar o resto da vida escrevendo contos que nunca seriam lidos por ninguém.