
A BRISA DO VENTILADOR JÁ NÃO ESTÁ MAIS TÃO AGRADÁVEL. Acordo às quatro da matina com o corpo gelado. Ainda em transe pelo sono, dou dois passos e desligo o ventilador. Volto para cama como um sonâmbulo, escorrego pelos lençóis, buscando o travesseiro e sinto meus pés gelados por causa do piso. Estranho a temperatura, mas o sono não me deixa raciocinar direito. Puxo o edredom sobre mim e volto para o tão delicioso descanso.
Sinto a perna da minha esposa acomodar-se sobre minha cintura e aprecio o calor do seu corpo sobre o meu. - Que frio. Diz ela num sussurro. Concordo e me aninho mais a ela. A janela estremece com uma rajada de ar e o quarto se torna mais gélido ainda. Minha esposa num movimento quase involuntário salta da cama, abre uma porta do guarda-roupa e retira lá do alto um cobertor. Sinto o peso de mais uma coberta cair agradavelmente sobre mim.
Apesar dos pés gelados consigo tirar um cochilo até as seis e meia da manhã. Ouço sirenes de bombeiros, ambulâncias e carros de polícia numa quantidade maior que o normal. Ameaço levantar da cama e volto para baixo das cobertas quase que instantaneamente, pois o frio é intenso e cortante. Conto mentalmente até dez para me lançar para fora das cobertas e dou um salto colocando os dois pés no chão. Sinto o piso entrar em contato com a sola de meus pés de uma forma estranha. É como se meu corpo começasse a petrificar a partir da base. Aos poucos o sangue dos dedos paralisa, causando uma reação em cadeia para o calcanhar, juntas dos tornozelos, canelas e antes que chegasse ao restante da minha perna retirei-a do chão e voltei novamente para baixo das cobertas. Bati forte o queixo, rangendo os dentes. Olhei para a fresta da janela que deixava um filete de luz entrar e notei que algo realmente não estava normal. Entre o espaço do alumínio brilhava uma camada fina de uma substância branca. Era uma espécie de cola transparente unindo as duas partes de metal. Brilhava muito e então tive a certeza de que, por mais difícil que fosse, teria que levantar, teria que superar todo o frio e saltar da cama, vestir uma roupa, meias e tudo o que fosse necessário para me abrigar e verificar o que estava ocorrendo de tão estranho naquela manhã de janeiro, em pleno verão. E assim fiz. Envolvido por dois blusões de lã, cheirando a naftalina, fui até a janela da sala e abri a cortina. Pasmem, dei um salto atrás.
NEVOU EM SÃO PAULO
A cidade antes monocromática pela cor cinza agora se cobria de branco e estava gélida a minha frente. Pálida como uma geleira, grossa como um congelador precisando de descongelamento. As ruas brilhantes espelhavam o céu e havia pessoas brincando de escorregar na neve e outras correndo desesperadas, tentando entender a loucura toda. Uma coisa tinha-se certeza. Havia nevado em São Paulo, em pleno verão. Aquilo, sem a menor dúvida era neve. De onde havia saído? Como acontecera? Era o que todos se perguntavam.
Fiquei ali a contemplar aquela paisagem encantadora e assustadora. Liguei a TV e todos os canais interromperam suas programações normais para mostrar a São Paulo coberta por neve. De acordo com as notícias todas as regiões da grande São Paulo estavam embranquecidas pelo gelo. Os aeroportos de Congonhas e Guarulhos cancelaram todos os pousos e decolagens. O metrô funcionava perfeitamente após retirarem o excesso de neve das escadarias de todas as estações. Porém, trens de superfície estavam completamente parados em decorrência da neve acumulada nos trilhos. Ônibus nenhum estava circulando pela cidade por causa do perigo de derrapagem. Os sistemas de comunicação entraram em colapso, não pelo frio ou pela neve, mas porque uma quantidade de vinte milhões de pessoas resolvera usar os celulares todos ao mesmo tempo. A câmara de vereadores anunciou uma sessão extraordinária para discutir a questão glacial. Notável foi o espetáculo de moda proporcionado pelos edis paulistanos. Ternos de lã, parcas, sobretudos e vestimentas que não perdiam nem um pouco para a moda do inverno europeu. Porém, apesar do glamour, nada ficou decidido, pois ninguém podia explicar de onde viera e quanto tempo duraria essa inusitada situação climática. Na televisão um taxista que estava de plantão no momento que começou a nevar relatava o que havia acontecido. Com os olhos muito arregalados ele narrava o momento que sentiu uma forte rajada de vento se aproximar, levantando muita poeira, quebrando galhos de árvores, isso por volta de três da manhã. Ele contava que sentiu pequenas gotas d’água caírem sobre o pára-brisa de seu automóvel. Aos poucos os pingos começaram a se transformar em pequenos flocos brancos que deslizavam sobre o vidro. A paisagem, segundo o taxista narrador, começou a se tingir de branco. Em menos de uma hora tudo a sua frente estava coberto de neve, inclusive sua parati. Neste momento o câmeraman mostrou o automóvel enterrado na neve. Sobre a imagem da parati entrou uma repórter vestindo um sobretudo preto com gola peluda, finalizando a matéria: - Estamos aqui nas ruas de São Paulo acompanhando esta manhã muito diferente na vida dos paulistanos. A qualquer momento voltamos com novas informações. A partir daí uma vinheta computadorizada mostrava a bandeira da cidade com flocos de neve à volta. Não se sabe como, mas as casas Bahia entraram com comercial anunciando aquecedores elétricos em até trinta vezes, sem entrada.
A cidade antes monocromática pela cor cinza agora se cobria de branco e estava gélida a minha frente. Pálida como uma geleira, grossa como um congelador precisando de descongelamento. As ruas brilhantes espelhavam o céu e havia pessoas brincando de escorregar na neve e outras correndo desesperadas, tentando entender a loucura toda. Uma coisa tinha-se certeza. Havia nevado em São Paulo, em pleno verão. Aquilo, sem a menor dúvida era neve. De onde havia saído? Como acontecera? Era o que todos se perguntavam.
Fiquei ali a contemplar aquela paisagem encantadora e assustadora. Liguei a TV e todos os canais interromperam suas programações normais para mostrar a São Paulo coberta por neve. De acordo com as notícias todas as regiões da grande São Paulo estavam embranquecidas pelo gelo. Os aeroportos de Congonhas e Guarulhos cancelaram todos os pousos e decolagens. O metrô funcionava perfeitamente após retirarem o excesso de neve das escadarias de todas as estações. Porém, trens de superfície estavam completamente parados em decorrência da neve acumulada nos trilhos. Ônibus nenhum estava circulando pela cidade por causa do perigo de derrapagem. Os sistemas de comunicação entraram em colapso, não pelo frio ou pela neve, mas porque uma quantidade de vinte milhões de pessoas resolvera usar os celulares todos ao mesmo tempo. A câmara de vereadores anunciou uma sessão extraordinária para discutir a questão glacial. Notável foi o espetáculo de moda proporcionado pelos edis paulistanos. Ternos de lã, parcas, sobretudos e vestimentas que não perdiam nem um pouco para a moda do inverno europeu. Porém, apesar do glamour, nada ficou decidido, pois ninguém podia explicar de onde viera e quanto tempo duraria essa inusitada situação climática. Na televisão um taxista que estava de plantão no momento que começou a nevar relatava o que havia acontecido. Com os olhos muito arregalados ele narrava o momento que sentiu uma forte rajada de vento se aproximar, levantando muita poeira, quebrando galhos de árvores, isso por volta de três da manhã. Ele contava que sentiu pequenas gotas d’água caírem sobre o pára-brisa de seu automóvel. Aos poucos os pingos começaram a se transformar em pequenos flocos brancos que deslizavam sobre o vidro. A paisagem, segundo o taxista narrador, começou a se tingir de branco. Em menos de uma hora tudo a sua frente estava coberto de neve, inclusive sua parati. Neste momento o câmeraman mostrou o automóvel enterrado na neve. Sobre a imagem da parati entrou uma repórter vestindo um sobretudo preto com gola peluda, finalizando a matéria: - Estamos aqui nas ruas de São Paulo acompanhando esta manhã muito diferente na vida dos paulistanos. A qualquer momento voltamos com novas informações. A partir daí uma vinheta computadorizada mostrava a bandeira da cidade com flocos de neve à volta. Não se sabe como, mas as casas Bahia entraram com comercial anunciando aquecedores elétricos em até trinta vezes, sem entrada.

AS AUTORIDADES NÃO HAVIAM SE PRONUNCIADO COM EXPLICAÇÕES DO FATO. O prefeito deu uma coletiva por volta das onze da manhã. Apareceu sentado em sua mesa, vestindo um terno de lã marrom e gravata preta. Perguntado por um dos repórteres presentes sobre o que teria causado o acontecido, ele foi categórico: - Eu sou prefeito, análises climáticas estão sendo feitas pelos meteorologistas e cientistas. Assim que tivermos uma explicação informaremos a vocês. Assuntos climáticos cabiam aos cientistas, assim conclui a sua coletiva. Mas, pelo jeito, os cientistas também não tinham um parecer muito claro sobre o assunto.
Por volta das duas da tarde voltou a cair neve em toda grande São Paulo. A euforia inicial que tomou conta da população deu espaço à histeria. Um vento de sessenta quilômetros por hora começou a assobiar nas colunas dos edifícios, causando a impressão que a construção não agüentaria, pois grossas camadas de neve acumulavam-se nos beirais. Ouviam-se gritos de desespero pelas ruas e a temperatura começava a cair muito mais. Durante três dias consecutivos a nevasca não deu trégua. Ninguém saia de casa, muitas residências ficaram sem energia elétrica, pois as estruturas de fiação começaram a desabar com o acumulo de neve. O caos estava formado na maior cidade do país. Não havia equipamentos nem pessoas treinadas a enfrentar este tipo de emergência. O que cada indivíduo percebia era uma aura cálida e gélida a pairar sobre a cidade que entrava em suas almas talvez mais gélidas ainda. Debruçados sobre suas janelas, com a cara colada no vidro embaçado, milhões de pessoas meditavam sobre suas vidas e contemplavam as suas ruas, seus bairros e calçadas forradas de neve. Sim, aquela substância branca que não devia estar ali, mas sim em algum lugar muito distante onde eles comprariam pacotes turísticos e se divertiriam por dias a fazer bonecos com gravetos e depois voltariam para o prazer da temperatura semitropical, para a poluição, para o engarrafamento, para a correria. Mas agora tudo havia mudado. Mais trágico ainda é que, em breve, descobririam que isso não era apenas uma mudança climática, tudo seria muito diferente dali em diante. A Saudade começava a tocar a lembrança de quando São Paulo tinha um clima muito maluco, mas sem neve.
(continua com a versão do autor. Ou sugira a sua versão dos acontecimentos no e.mail do blog: odiadacriacao@gmail.com)
Um comentário:
Gostei muito. Da um bom filme hein?
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