sexta-feira, 16 de abril de 2010

Criado-mudo, porém, não surdo.

Faz muito tempo que me livrei dessa raça que só desmoraliza a imagem dos mobiliários.
Lembro-me do último que tive, era do tipo cerejeira, coberto por uma lâmina e por dentro caco de madeira.

Triste o dia em que resolvi confiar àquele crápula a foto de minha namorada.
Sobre ele coloquei seu retrato, ao lado de um pequeno abajur de tecido vermelho e franjas amareladas.
Todas as noites, antes de dormir, olhando para aquele rostinho, desejava boa noite e declarava todo o meu amor, finalizando com um beijinho.
Após, devolvia-lhe aos cuidados do criado mudo, porém não surdo.
Nunca que eu desconfiaria que aquele velhaco guardava para si todas as palavras de amor que eu proferia à minha amada, sobre ele depositada.
Até o dia que tomei um “pé na bunda” e o retrato da vagabunda foi parar na gaveta do maldito criado mudo.
Este, por sua vez, todas as noites antes de eu dormir, repetia com ironia, palavra por palavra, as juras que eu ditava, no tempo em que amava.
Daí você vai me perguntar: Mas como. Acaso o criado não é mudo? E eu responderei meu amigo: mudo, porém não surdo.
As palavras que o maldito ditava, não eram das que se fala e sim das que cala.
Com jeito de quem não sabe nada, cada vez que a luz se apagava, no silêncio que ali reinava, só de olhar para aquele criado com a imagem da dita cuja na segunda gaveta trancafiada, as palavras ecoavam e nada me diz ao contrário que era coisa daquele salafrário as tais palavras que eu ouvia. Boa noite querida, durma com os anjos, porque eu hei de te amar por toda a minha vida.

Um comentário:

César Mengozzi disse...

As lembranças sempre vão ficar... não adianta culpar ao criado mudo.